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Mesmo depois de diversas reformas, a contabilidade das organizações permanece obscura.

Em um mundo perfeito, investidores, conselheiros e executivos têm plena confiança nas demonstrações financeiras das empresas. Podem contar com os números para fazer estimativas inteligentes da magnitude, do tempo e das incertezas dos fluxos de caixa futuros, além de julgar se o cálculo resultante do valor foi bem representado nos preços atuais das ações. E podem tomar decisões sábias sobre investir ou adquirir uma organização, favorecendo, assim, a alocação eficiente de capital.

Infelizmente, não é isso que acontece no mundo real, por várias razões. Primeiro, demonstrações financeiras de empresas dependem necessariamente de estimativas e julgamentos que podem estar bem fora da realidade, mesmo quando há boa-fé. Segundo, métricas financeiras padrão, destinadas a permitir comparações entre organizações, podem não ser a maneira mais precisa de julgar o valor de qualquer empresa (principalmente para organizações inovadoras em economias em rápido movimento), o que dá origem a medidas extraoficiais, com problemas próprios. Finalmente, gestores e executivos encontram, de forma rotineira, fortes incentivos para alterar, deliberadamente, as demonstrações financeiras.

Muitas ainda encontram maneiras de burlar o sistema em meio ao surgimento de plataformas online, o que mudou drasticamente o ambiente competitivo para todas as empresas e expôs as deficiências dos indicadores de desempenho tradicionais. Este artigo aponta a evolução mais importante de relato financeiro nos últimos anos, particularmente o impacto das novas regras que regem o reconhecimento de receitas, a proliferação persistente de medidas de desempenho não oficiais e os desafios da avaliação dos valores de ativos de forma justa.

Exploramos aqui a prática mais insidiosa (e talvez a mais destrutiva) de manipular, em relatórios financeiros, não os números, mas as decisões operacionais que os afetam, na tentativa de alcançar resultados em curto prazo. Encontrar formas de reduzir essa prática é um desafio para os profissionais de contabilidade, mas novas técnicas analíticas podem ajudar.

PROBLEMA 1
Padrões universais
Em 2002, o mundo parecia estar à beira de uma revolução da contabilidade. Uma iniciativa estava em curso para criar um único conjunto de normas internacionais de contabilidade, com o objetivo último de unir os Princípios Contábeis Geralmente Aceitos dos Estados Unidos (GAAP, na sigla em inglês) e as Normas Internacionais de Relato Financeiro (IFRS, na sigla em inglês), em processo de adoção pelos países europeus. Até 2005, todas as empresas públicas da União Europeia tinham, em teoria, abandonado suas normas locais de contabilidade em favor das IFRS. Hoje, pelo menos 110 países em todo o mundo usam o sistema de uma forma ou de outra.

Mas, em sentido amplo, a convergência estagnou e outras alterações substantivas pareciam improváveis num futuro próximo. Houve certo progresso, mas compreender o verdadeiro valor de uma organização e comparar as contas das empresas em todos os países ainda são grandes desafios.

Considere as implicações da dificuldade de conciliar GAAP e IFRS. A análise das metas de investimento, aquisições ou concorrentes, em muitos casos, ainda exige a comparação das demonstrações financeiras sob dois regimes contábeis distintos. Essas diferenças são grandes o suficiente para mudar uma decisão de aquisição.

Para complicar ainda mais as coisas, a maneira como os regulamentos IFRS são aplicados varia muito de um país para outro. Cada um tem seu próprio sistema de regulação e suas determinações, e, em muitos lugares (principalmente nas regiões emergentes de crescimento mais rápido), o cumprimento e a aplicação são pouco eficientes. Na área de contabilidade, qualidade e independência profissional são com frequência também desiguais.

É preocupante o fato de que muitos países criaram cada um sua própria versão do sistema IFRS, impondo “carve outs” (remoção de passagens ofensivas) e “carve ins” (adições) para o padrão oficial promulgado pelo Conselho Internacional de Normas de Contabilidade (IASB, na sigla em inglês). Índia e China são exemplos notáveis. Assim, já que vários países, como Austrália e Canadá, adotaram entre eles a versão completa e não adulterada de IFRS, vale a pena verificar se uma empresa de interesse adotou uma versão encurtada ou adulterada.

PROBLEMA 2
Reconhecimento de receita
Trata-se de uma parte complicada do quebra-cabeça da regulamentação. Suponha que você venda um smartphone, um serviço de internet ou um pacote de software de US$ 30 milhões para um indivíduo ou uma empresa. O contrato para o produto ou serviço muitas vezes inclui atualizações futuras com custos que não podem ser previstos no momento da venda. Portanto, é impossível determinar o lucro da transação.

De acordo com as regras de GAAP atuais, se não houver uma maneira objetiva de medir esses valores de antemão, um negócio não pode registrar as receitas dessa venda até que todos os requisitos de atualização sejam entregues e seus custos conhecidos — o que pode demorar alguns anos. Esse regulamento tem levado algumas empresas de software a redigir contratos que contemplam atualizações de preço e outros serviços difíceis de estimar. Ao agir assim, as empresas resolvem um problema de contabilidade — mas comprometem sua capacidade de adotar uma estratégia de pacotes possível e mais atraente. O resultado é um sistema perverso em que as regras de contabilidade influenciam a maneira de fazer negócios, em vez de demonstrar o desempenho das empresas.

As deficiências de práticas de reconhecimento de receita também têm influenciado as organizações a usar cada vez mais medidas não oficiais para demonstrar o desempenho financeiro, principalmente aquelas que operam no espaço virtual. O sucesso colossal de redes sociais como Facebook, Twitter e Ren Ren, de esportes fantasia e sites de jogos como Changyou e Zynga e de mercados online como Amazon, eBay e Alibaba é prova de que as diretrizes tradicionais para o reconhecimento e a mensuração de receitas e despesas impediam essas empresas de declarar o real valor dos seus negócios nas contas reportadas. Sem surpresa, elas logo começaram a adotar formas alternativas de reportar os ganhos. Por exemplo, em 2015, o Twitter informou perda líquida GAAP de US$ 521 milhões; também ofereceu não uma, mas duas medidas de ganhos não GAAP que apresentaram renda positiva: Ebitda ajustado de US$ 557 milhões e um lucro não GAAP líquido de US$ 276 milhões.

Uma mudança no próximo ano nas regras tanto em relação a IFRS quanto a GAAP deve aliviar as deturpações de práticas de reconhecimento de receitas correntes. As novas regras permitem que as empresas que agregam produtos e serviços futuros em contratos reconheçam a receita no ano em que é obtida por meio de estimativas de custos e receitas futuras.

Mas a mudança não vai eliminar completamente os problemas. Afinal, o cálculo dos custos exige que os gestores exerçam um juízo, introduzindo ainda mais uma oportunidade para cometer erros ou deliberadamente fazer estimativas de tal forma que as receitas finais fiquem mais próximas de cumprir as metas financeiras. Portanto, à medida que os novos padrões de reconhecimento de receita forem adotados, os investidores terão de examinar atentamente os pressupostos e os métodos utilizados para estimar os custos e as receitas do relatório.

PROBLEMA 3
Medidas de lucros não oficiais
Embora as medidas não oficiais de receitas sejam relativamente novas para muitos, vários tipos de organização costumavam empregar outras medidas de lucros que não IFRS e GAAP havia um bom tempo. Talvez a mais popular seja a Ebitda (ou lucros antes de juros, impostos, desvalorização e amortização), favorita entre investidores de private equity porque foi elaborada para representar rapidamente o fluxo de caixa disponível para o serviço da dívida. No setor de tecnologia, há muitas medidas não GAAP; durante a primeira onda pontocom, as empresas começaram a usar eyeball, page views e assim por diante para convencer analistas e investidores de que seus negócios tinham valor apesar da ausência de lucros (e às vezes até de receitas).

Hoje, a Sarbanes-Oxley exige que as empresas nas bolsas americanas conciliem as medidas de ganhos com as não GAAP, com exigência similar em relação a IFRS. Além disso, a SEC exige que a gestão seja capaz de suportar o raciocínio por trás, incluindo uma medida alternativa em suas divulgações financeiras. Por exemplo, uma empresa pode justificar o uso de uma medida não GAAP sob a alegação de que esta é uma exigência de um dos seus convênios de títulos.

O perigo, no entanto, é que medidas alternativas, em geral, são idiossincráticas. Mesmo aquelas comumente utilizadas, como Ebitda, podem não permitir comparação entre empresas (ou na mesma organização de um ano para outro) por causa das diferenças incluídas ou não no cálculo. Investidores e analistas devem continuar a tomar muito cuidado na interpretação de medidas de lucros não oficiais e analisar atentamente explicações corporativas que podem depender do uso (ou abuso) do julgamento gerencial.

PROBLEMA 4
Contabilização do valor justo
Executivos e investidores têm duas medidas à disposição para determinar o valor dos ativos de uma empresa: o preço originalmente pago (ou seja, o custo de aquisição ou histórico) e o valor que esses ativos trariam se fossem vendidos hoje (valor justo).

 Hoje, as organizações utilizam o justo valor para um número crescente de classes de ativos na esperança de que um exame dos balanços possa produzir uma imagem mais fiel da realidade econômica atual. Mas, uma vez que nem todos concordam com o “valor justo”, a medida ganhou grande carga de subjetividade no processo de informação financeira, criando novos desafios tanto para quem prepara como para quem utiliza demonstrações financeiras.

Duas instituições financeiras francesas, BNP Paribas e CNP Assurances, analisaram os mesmos dados e escolheram reduzir os títulos a apenas 21%. Elas rejeitaram os preços de mercado com base em uma justificativa questionável: o mercado tinha pouca liquidez para fornecer uma avaliação “justa”. Em vez disso, recorreram às chamadas estimativas de valor justo “Nível 3” em um processo conhecido como marcação por modelo (em contraste com as avaliações marcação por mercado usadas pelo RBS).

Se essas dificuldades surgem com títulos negociáveis, imagine como é difícil aplicar os princípios de valor justo de forma consistente aos intangíveis, como ágio, patentes, acordos de earn-out e projetos de investigação e desenvolvimento. Para piorar as coisas, divulgações sobre como ativos intangíveis são valorizados oferecem apenas informações básicas sobre os pressupostos que geraram as estimativas. É difícil ver como a situação poderia melhorar: raramente encontramos um relatório anual SEC (10K) de 150 páginas. Se incluíssem a divulgação completa das hipóteses subjacentes às estimativas de valor justo (se fosse mesmo possível), os relatórios seriam imensos.

PROBLEMA 5
Ajeite as decisões, não os livros
Quando contadores, analistas, investidores e diretores falam sobre esquemas de contabilidade, costumam se concentrar em como os custos são acumulados nos relatórios da empresa. Os gestores podem, por exemplo, optar por aumentar a provisão — isto é, exagerar deliberadamente os gastos ou as perdas, como dívidas incobráveis ou de custos de reestruturação — para criar uma reserva falsa oculta que pode ser liberada em períodos futuros para inflar artificialmente os lucros. Ou diminuir a provisão, atrasando, de propósito, o reconhecimento de determinada despesa ou algum prejuízo no ano em curso. Nesse caso, o lucro é emprestado de períodos futuros para impulsionar os ganhos no presente.

As recentes mudanças nas regras GAAP e IFRS deixaram essas atividades menos flagrantes do que antes, embora o aumento da provisão jamais possa ser eliminado. Os gestores gostam da flexibilidade contábil das reservas ocultas. Auditores externos fazem vista grossa (dentro de limites) porque sabem que as empresas não correm risco de ser processadas por subestimar os lucros. Eles têm muito mais medo de subestimar os custos para os clientes (e, assim, exagerar nos lucros).

Em geral, os regulamentos têm enfraquecido a capacidade das empresas de manipular relatórios financeiros, assim, o esquema dos resultados mudou de lugar, aonde as regras de contabilidade terão dificuldade para chegar: tomada de decisão corporativa, que serve aos interesses dos relatórios de curto prazo, mas prejudica o desempenho de longo prazo.

Um estudo publicado no Journal of Accounting and Economics entrevistou mais de 400 executivos seniores sobre como as empresas reportavam os lucros. Os pesquisadores pediram aos executivos que imaginassem um cenário em que a organização estivesse prestes a perder a meta de lucros do trimestre. Dentro das limitações da GAAP, que escolhas poderiam fazer para atingir a meta?

O estudo revelou que os gestores tendem a manipular os resultados não pela forma como relatam o desempenho, mas cronometram suas decisões operacionais.

Os gestores elevam os números ao manipular a produção. Se uma empresa tem excesso de capacidade considerável, por exemplo, os gestores podem escolher aumentar a saída, permitindo que os custos fixos de produção sejam distribuídos por mais unidades. O resultado é redução no custo unitário e, consequentemente, diminuição nos custos de vendas e aumento nos lucros. Mas essa prática leva a altos estoques de produtos acabados, impondo à empresa um pesado fardo em troca de melhores margens em curto prazo. O que torna estes resultados tão perturbadores não é apenas o fato de que os esquemas são comuns, mas o fato de que essas ações não violam a GAAP ou a IFRS. Executivos se sentem livres para agir com tranquilidade, e o auditor não poderá fazer objeções. Além do mais, é muito difícil detectar esse tipo de comportamento destrutivo considerando as regras de divulgação atuais.

Novas ferramentas analíticas podem ajudar
Investidores e membros do conselho entendem que manipular decisões operacionais no intuito de relatar ganhos mais elevados no curto prazo introduz um risco bem real de comprometer a competitividade no longo prazo de uma empresa. Fica claro também que, na medida em que as normas contábeis continuam a melhorar e ajudar a impedir mais fraudes contábeis (embora os incentivos para executivos alcançarem metas de curto prazo permaneçam fortes), as empresas serão cada vez mais propensas a ajeitar as decisões em vez dos livros. Assim, os investidores e os administradores terão de exigir maior divulgação sobre essas escolhas operacionais, mais suscetíveis à manipulação, a fim de determinar se são feitas por razões comerciais sólidas ou para aumentar artificialmente os resultados financeiros.

É claro que isso criará problemas práticos quanto ao volume relatado de informações e envolverá detalhes difíceis de verificar. Na verdade, os requisitos regulatórios que produzem relatórios cada vez mais longos podem ser um exercício para diminuir retornos. O que precisamos, talvez, sejam abordagens mais inteligentes para analisar os dados disponíveis. A boa notícia é que, cada vez mais, novas técnicas têm sido aplicadas por analistas e investidores.

Uma abordagem para a análise desses relatórios que recentemente conquistou mercados financeiros toma como base a Lei de Benford, sobre a distribuição de frequência de dígitos iniciais em conjuntos de dados numéricos. A lei existe há um bom tempo, mas só recentemente foi aplicada na contabilização e no setor financeiro: companhias de seguros começaram a usá-la para detectar falsas alegações; o IRS para identificar fraude fiscal; e as quatro grandes empresas de contabilidade para encontrar irregularidades contábeis.

Variáveis contábeis também devem ser distribuídas de acordo com a Lei de Benford — e são, desde que não haja manipulação dos dados. Na verdade, a distribuição se mantém mesmo que os números sejam convertidos de uma moeda para outra. Se um conjunto de dados de contabilidade se desvia da Lei de Benford, isso pode ser tomado como prova de alteração.

Outra ferramenta para detectar práticas inescrupulosas surge da pesquisa de dois acadêmicos de contabilidade que analisaram as transcrições de aproximadamente 30 mil conference calls de CEOs e CFOs dos Estados Unidos entre 2003 e 2007. Os pesquisadores se basearam em estudos psicológicos que mostram como nossos padrões de fala mudam quando mentimos. Eles apontam várias pistas verbais que podem ajudar um ouvinte a identificar que algo não está certo com as contas da empresa. Por exemplo, em organizações que mais tarde foram forçadas pela SEC a fazer grandes reformulações, chefes que costumavam fazer alterações mostravam os seguintes padrões:

Raramente especificar valor para os acionistas (talvez para minimizar o risco de ação judicial).

Usar palavras positivas demais ( em vez de descrever algo como “bom”, chamar de “fantástico”).

Evitar o uso da palavra “eu”, preferindo a terceira pessoa.

Usar menos expressões de hesitação, como “hum” e “é” (o que pode sugerir que treinaram para não errar).

Usar obscenidades com mais frequência.

É evidente que gestores que pretendem fazer alterações podem aprender a evitar esses indicadores. Mas, enquanto isso, os sinais verbais podem ser uma ferramenta útil para os membros do conselho e outras partes interessadas em identificar práticas desonestas.

Manipular resultados financeiros é mais prevalente nos primeiros anos de mandato de um CEO e diminui ao longo do tempo, segundo estudo recente. Uma possível explicação é que os primeiros anos são o período de maior incerteza sobre sua capacidade, então ele pode distorcer os ganhos na tentativa de manter o emprego. A lição para os membros da diretoria e investidores é que devem abrir bem os olhos para as práticas de contabilidade de um executivo recém-chegado.

Para que as demonstrações financeiras possam cumprir sua importante função social e econômica, devem revelar a verdade econômica subjacente de um negócio. Na medida em que se desviam da verdade, o escasso capital continuará a ser mal distribuído, e a riqueza e o emprego prejudicados.

Nunca vamos chegar a um mundo em que todos os relatórios sejam perfeitos e totalmente confiáveis, mas reconhecer suas deficiências e saber que existem novas ferramentas para detectar a manipulação pode nos ajudar a continuar a lutar por esse ideal.

Na medida em que as empresas cronometram cada vez mais as decisões operacionais para aumentar artificialmente os números de desempenho, uma prática difícil de detectar e regular, a vigilância se torna vital.

Fonte: Harvard Business Review

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